Bambuzal

Bambu é pau para toda e boa obra

O Brasil descobre, aos poucos, o potencial social e econômico dessa gigantesca gramínea, tão valorizada no Oriente

fonte: (Raquel Lima - (rlima@rac.com.br)

“Nós podemos viver sem carne; nós não vivemos sem bambu.” A frase atribuída ao pensador chinês Confúcio revela a importância da espécie vegetal para o continente asiático. Lá no outro lado do mundo, o bambu é considerado uma dádiva dos deuses e ouro verde da floresta. Porém, muitos países, incluindo o Brasil, ainda desconhecem o verdadeiro potencial social e econômico dessa gigantesca gramínea. Tanto que muitos a consideram a “madeira dos pobres”. Aos poucos, no entanto, a Ciência e a Tecnologia vêm comprovando as inúmeras vantagens de sua utilização nas mais variadas áreas.

“O preconceito existe, principalmente em relação às construções com bambu. Mas é bom lembrar que a madeira também enfrenta preconceito quanto ao seu uso em construção. A cultura brasileira é pela construção de alvenaria”, disse o professor Marco Antonio dos Reis Pereira, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Geralmente o bambu está associado a coisas temporárias e sem muito valor agregado. Outro fator é o desconhecimento quase completo, não do bambu que existe em todo lugar, mas de suas espécies, características físicas, mecânicas e suas milhares de possibilidades de usos”, completou o especialista.

Uma série de fatores fazem do bambu uma planta especialmente diferenciada. Um dos destaques é o seu potencial de crescimento: cresce mais rápido do que qualquer outra planta do planeta e pode atingir até 30 metros. Além disso, o bambu é tolerante a solos com baixa fertilidade e, dependendo da espécie, os colmos podem ser cortados após dois a quatro anos. O bambu apresenta ainda uma das estruturas mais perfeitas da natureza, pois combina flexibilidade com leveza. Sem contar que praticamente nada se perde do bambu.

Quer mais? O bambu é também ecologicamente correto. Como a espécie vegetal cresce de forma rápida, ele tem alto poder de seqüestro de carbono (CO2) e de reflorestamento de áreas devastadas. É ainda conhecido por suas propriedades de conservação do solo. Isso porque os bambus “costuram” os solos, tornando-os compactos e coesos.

Utilidades

O bambu é aquele tipo de produto que podemos dizer que possui “mil e uma utilidades”. Há milênios, os asiáticos recorreram ao bambu para fazer lanças, flechas, cestas, utensílios culinários, esculturas, máscaras, entre outros objetos. No Brasil, os índios utilizavam a planta para fazer hastes de flechas, facas, etc.

O bambu também é utilizado para a geração de energia (há estudos de que o álcool etanol pode ser retirado do bambu) e o carvão desta planta é considerado excelente. O papel de bambu tem a mesma qualidade que o papel de madeira. Os especialistas também argumentam que o bambu oferece seis vezes mais celulose que o pinheiro e suas fibras são muito resistentes e de qualidade superior à fibra de madeira. Na culinária, os brotos de bambu são apreciados, principalmente pelos asiáticos. Já há utilização do bambu em cosméticos, malhas e até em toalhas de banho.

Os bambus também têm aplicação medicinal. “A tradição de uso do bambu no oriente nos diz que do colmo e das folhas da planta são extraídas bebidas antitérmicas, um extrato de sílica chamado tabashir empregado contra asma, loção para os olhos e ainda produtos como enzimas, hormônios, substâncias para cosméticos, xampus, etc. Na China estão estudando a extração de flavonóides (compostos químicos que previnem ou retardam o desenvolvimento de alguns tipos de câncer) das folhas de bambu. Tem ainda o broto comestível capaz de fornecer proteína, fibras e elementos anti-oxidantes”, contou o professor da Unesp.

Mas a gigantesca gramínea apresenta ainda um importante papel social nos países mais pobres. No Equador, na Colômbia e na Costa Rica, por exemplo, os bambus servem como matéria-prima para a construção de casas para populações carentes. A planta também pode ser utilizada para a fabricação de móveis e de objetos de decoração. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram, em 2004, um barato e eficiente método de tratamento de esgoto doméstico utilizando o bambu.

O professor Antonio Ludovico Beraldo, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, contou que, há cerca de dez anos, Campinas era a cidade mais importante do Brasil em relação aos estudos sobre o bambu, por meio do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). “Mas os pesquisadores se aposentaram e outras plantas passaram a ser foco dos trabalhos”, explicou.

“No entanto, o Brasil está começando a descobrir o valor econômico do bambu”, afirmou o professor da Unicamp. Tanto é que um Seminário Nacional de Bambu e Políticas Públicas está marcado para ocorrer em Brasília entre os dias 13 e 15 de setembro. O evento é promovido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério do Meio Ambiente.

SAIBA MAIS

As virtudes e os defeitos de um planta versátil

Dentre os vários filamentos para a lâmpada testados por Thomas Edson, o carvão de bambu foi o mais adequado

Um dos maiores desafios em relação ao bambu é a sua durabilidade. Algumas espécies, se não receberem tratamento adequado, podem durar menos de uma ano

O bambu apresenta cerca de 55% de celulose

Na Índia, cerca de 70% do papel é feito à base de bambu

Na Tanzânia existem 700 km de tubulações de bambu para irrigação

A resistência à compressão de uma peça curta de bambu pode ser seis vezes superior ao concreto

A ponte Golden Gate foi inspirada em pontes pênseis de bambu trançado na China

Filtros para café também podem ser feitos com o bambu

Bambu picado pode substituir a areia/brita na confecção de concreto leve

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O bambu raramente floresce e, quando o faz, todos os indivíduos com a mesma origem genética podem florescer simultaneamente (em qualquer lugar em que estejam), vindo a morrer. É uma chance rara para propagar o bambu através de sementes

O panda gigante depende da existência de algumas espécies de bambu

O bambu foi uma das primeiras manifestações de vida após o bombardeio nuclear de Hiroshima

Há 1.300 espécies em todo o mundo

No País faltam fornecedores de mudas de bambus e mão-de-obra especializada

No Brasil, existem mais de 200 espécies nativas de bambus, segundo Marco Antonio dos Reis Pereira, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ainda de acordo com o especialistas, há ainda aqueles que foram introduzidos pelos portugueses, japoneses e outros povos. “Esses são chamados de bambus exóticos e são os que se vêem espalhados por aí, no campo, nas beiras de estradas, entre outros lugares, e são os mais utilizados”, afirmou. Segundo Pereira, as espécies mais utilizadas e encontradas são: Bambusa vulgaris (papel e celulose), Plyllostachis aurea (vara de pescar ou cana da índia), Plyllostachis edulis (bambu moso ou bambu chinês), Dendrocalamus giganteus (bambu gigante), Bambusa tuldoides (balaios, artesanato, etc.).

O professor Antonio Ludovico Beraldo, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressaltou que atualmente existem mais de cem pesquisadores brasileiros estudando o bambu, mas que não há disponível no País “grandes áreas de bambu de boa qualidade para utilização”. “Também há falta de fornecedores de mudas, mão-de-obra especializada e máquinas para trabalhar com o bambu . Porém, é tudo uma questão de demanda”, disse Beraldo.

De acordo com o professor da Unicamp, em todo mundo há cerca de 45 gêneros e 1.300 espécies de bambu.

“A pesquisa sobre bambu no Brasil, apesar de ainda ser pouca, está crescendo. Embora o bambu não esteja sendo estudado em quase nenhum curso de Engenharia Florestal ou Agronomia, alguns pesquisadores estão trabalhando para tornar o bambu mais conhecido”, afirmou Pereira. As linhas de pesquisa abrangem plantio, manejo, produção de mudas, construção, laminados, chapas, celulose e papel e compósitos.

O navegador Amyr Klink se revelou um interessado em bambus e falou sobre a preferência pela espécie Guadua. “É uma espécie diferente e mais resistente”, explicou. Em sua casa, Klink possui cerca de 40 livros sobre bambus. “Apesar de ainda ser pouco conhecido no Brasil, o bambu poderá substituir a madeira. Até porque não acredito na certificação da madeira no País”, disse o navegador, que começou uma plantação de bambu em sua propriedade em Paraty (RJ).

6 comentários para “Bambuzal”

  1. Alexandre disse:

    gostaria de saber se existe algum tipo d tratamento aplicado no bambu para concervar a força e resistencia dele, para fins artesanais.

  2. Oggi disse:

    Oi Alexandre. A Oré utiliza bamboo das espécies Mosso e Gigante. Para que os mesmos não sejam atacados por fungos, e para que força e resistência sejam preservados, os bambus são cozidos e tratados com processos desenvolvidos na própria industria.

  3. Ingrid Lima disse:

    boa noite, estive na equipotel e amei seus produtos c laminados em bamboo, porem gostaria de fazer um revestimento p parede em ambiente interno, gostaria de perguntar se eu utilizar um bamboo nativo , quais bichos podem surgir e como evitar ?
    onde eu poderia pesquisar se o bamboo aumentaria performance acustica ou estrutural ?
    Em relacao a aquisicao dos produtos, podem enviar os valores por email, ja q sou de SC ou tem distribuidores ?
    Att
    Ingrid

  4. Oggi disse:

    Oi Ingrid ! já enviei resposta para seu e.mail.
    Abs.

  5. Olá vc poderia citar quais as espécies nativas de bambu existente no brasil?obrigado pela atenção.

  6. Oggi disse:

    Edemar, boa tarde.

    A quantidade é tão grande, que não caberia nesse post.
    Sugiro entrar em contato com o pessoal da BambuSC, pois eles podem lhe conseguir uma lista com essa informação.
    Abraços,

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